A polêmica Pele Mania da Arezzo

A grande maioria de vocês já deve estar ciente da polêmica causada pela coleção Pele Mania da Arezzo. A semana curta que antecede o feriadão foi marcada por discussões que começaram fazendo muito barulho nas redes sociais como Twitter e Facebook e acabaram ganhando páginas de jornais e revistas.

Para quem ficou de fora, aí vai o (meu) resumo da ópera...

Entre os lançamentos de sua coleção Outono/Inverno, a Arezzo incluiu uma linha com detalhes felpudos, na qual foram utilizadas peles VERDADEIRAS de raposas e coelhos. Ao que parece, não eram muitos itens, mas o suficiente para qualquer ser humano com um pouquinho de consciência ambiental se contorcer.


Peças da coleção Pele Mania da Arezzo com pele verdadeira 


Botando a cachola para funcionar, deixei num primeiro momento o ambientalismo de lado e pensei na questão comercial. Eu gostaria de saber quem foi o gênio que teve a brilhante idéia de inserir a pele de animal no inverno brasileiro. Um estola de pele de raposa?! Num país tropical?! Hein?! Sim, pois tirando o estados do sul que atingem temperaturas bem baixas (ainda assim, raramente abaixo de zero), em nenhum outro lugar do país seria possível usar algo tão quente mais do uma ou duas vezes na vida. E aí a Arezzo anuncia que a coleção é o “"hit glamuroso da temporada” e que “não pode faltar no guarda-roupa da fashionista". O presidente do grupo, Anderson Birman, ainda reafirma em entrevista à Folha de São Paulo: "Em todos os editoriais de moda de todas as revistas do mundo, inclusive nas brasileiras, esse fenômeno do uso de peles está sendo veiculado. Todas as marcas estão usando, é um tendência forte". Sim, senhor Birman, lá fora, ao olhar pela janela e ver as ruas cobertas de neve, deve ser mesmo muito gostoso o calorzinho de um casaco felpudo. De preferência sintético. Por aqui, dá gastura só de pensar.

Lá fora, embora eu discorde, é possível visualizar porque algumas grandes marcas ainda insistem nas peles. Há toda uma cultura que atravessa séculos, que envolve temas como status e luxo. Se no princípio as peles eram usadas para que as pessoas se protegessem do frio rigoroso no hemisfério norte, com o passar do tempo, essas peças foram se tornando sinônimo de glamour. Até que entrou em jogo uma tal de consciência ambiental e mudou tudo. Será que os setores de pesquisa, desenvolvimento e marketing da Arezzo não tiveram acesso às mesmas informações divulgadas aqui pela Veja São Paulo em fevereiro deste ano?

E agora vou para o argumento que causou mais polêmica, que também foi o que mais mexeu comigo. Por que raios, em tempos de amplos debates sobre sustentabilidade e preservação da natureza, uma empresa brasileira aceitaria o risco de ser apedrejada por lançar produtos com peles verdadeiras? Algum diretor de marketing da Arezzo já ouviu falar da luta contra a crueldade com animais? E de como, a cada dia, mais e mais pessoas se tornam simpatizantes da causa?

Particularmente, sou apaixonada por animais e não consiguiria em hipótese nenhuma vestir qualquer peça das que foram lançadas. E que não venham me chamar de hipócrita porque como carne vermelha e uso sapatos de couro bovino, e sou contra o uso de peles de raposa ou pingentes de pelo de coelho. Cada pingo no seu “i”. Infelizmente, sou um animal, e abaixo de mim na cadeia alimentar estão outros animais como o boi. Admiro muito e verdadeiramente os vegetarianos e veganos, mas eu ainda não consegui me desvencilhar do lado mais animal da minha natureza humana. Embora eu não suporte pensar na dinâmica de um frigorífico, eu sou geneticamente programada para buscar fontes de proteína animal. O que é totalmente diferente de vestir uma pele de raposa só para ter status. Eu não PRECISO da pele para me aquecer, pois existem outras formas de fazê-lo. A pele sintética hoje é tão macia e quente quanto a outra. Os homens das cavernas matavam os animais, comiam sua carne e vestiam suas peles. Era NECESSIDADE. Por que uma madame precisaria vestir a tal estola? Senhor Birman diz que é para estar na moda...

E fechando com chave de ouro toda a pataquada, diante da pressão, a Arezzo resolve retirar de suas lojas todos os produtos com pele de rapoza (as de pele de coelho ficaram, viu meninas?!). E solta o seguinte comunicado:


"Prezados consumidores,


A Arezzo entende e respeita as opiniões e manifestações contrárias ao uso de peles exóticas na confecção de produtos de vestuário e acessórios.
Por isso, vimos por meio deste nos posicionar sobre o episódio envolvendo nossas peças com peles exóticas – devidamente regulamentadas e certificadas, cumprindo todas as formalidades legais que envolvem a questão.
Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa.
Um dos nossos principais compromissos é oferecer as tendências de moda de forma ágil e acessível aos nossos consumidores, amparados pelos preceitos de transparência e respeito aos nossos clientes e valores.
E por respeito aos consumidores contrários ao uso desses materiais, estamos recolhendo em todas as nossas lojas do Brasil as peças com pele exótica em sua composição, mantendo somente as peças com peles sintéticas.
Reafirmamos nosso compromisso com a satisfação de nossos clientes e com a transparência das atitudes da Arezzo.


Atenciosamente,
Equipe Arezzo"


Alguém aí notou a frase: “Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa.” Como não? Se você se dispõe a comercializar peças com pele verdadeira, você também tem que se responsabilizar pelo seu ponto de vista. E papinho para boi dormir essa coisa de respeito aos consumidores. Ficaram com medo do boicote e voltaram atrás. Sequer foram capazes de debater seus argumentos, firmar uma posição, o que é no mínimo deprimente. A marca pode sim fazer o que quiser, escolher seu público alvo e traçar uma estratégia em cima dele. Se acharam que as peles eram uma boa no lançamento, porque voltar atrás tão rapidamente? Só o fizeram porque viram que deram um tiro no pé. Estratégia ruim, repercussão péssima. E ainda sobre a nota, o fato de serem peles regulamentadas e certificadas não apaga o fato de que estas raposas foram mortas APENAS para fornecerem suas peles. E que tirar os produtos das prateleiras, não apaga a crueldade que já se concretizou.

E quem ainda não viu, leia a entrevista de Birman à Folha. A entrevista do presidente do grupo, deixa bem claro que eles só retiraram os tais produtos das prateleiras por medo de mais barulho e por medo do proclamado boicote que se formou rapidamente nas redes sociais. Nas palavras de Birman: "Essa polêmica toda que acho que deve ter sido feita por ambientalistas de plantão com os quais não vou me expor para debater isso(...) Eu recuei justamente para não entrar numa rota de debate disso, tirando o foco da nossa coleção". E não há nobreza nenhuma neste ato. Foi apenas um gesto para tentar corrigir uma estratégia de marketing totalmente equivocada.

E sim, eu FUI cliente Arezzo. E não, eu NUNCA MAIS comprarei Arezzo. Uma empresa que sequer é capaz de manter um ponto de vista, não merece o meu dinheiro.

6 comentários:

Lis Tavares disse...

Oi Vanessa!
Que texto excelente, amei a maneira como vocês expôs as ideias sem pender pra esse ou aquele lado. Também como carne desesperadamente, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não tinha visto o posicionamento da empresa sobre o assunto e fiquei feliz de ver que as it blogueiras e as pessoas normais e mortais, pensam a respeito do assunto e são capazes de se posicionar contra a maioria que acha que bonito é ser fashion custe o que custar!
Beijo

Mariana Portella disse...

Fiquei tãão triste em saber dessa notícia, pois em pleno séc. XXI esse tipo de coisa ainda existe!! E logo a Arezzo que é (ou era) uma marca super conceituada. E ainda tentam dar justificativa p o que não tem.

Beijossss

Lanny disse...

Amei, amei, amei seu texto e seu ponto de vista. Não sou ambientalista, nem vegan, nem nada disso. Mas nos dias de hoje eu acho de extremo mau gosto fabricar roupas de peles verdadeiras, é brega, é madame sem consciência. As madames do Brasil têm grana o suficiente pra comprar peles que não sejam da Arezzo. A empresa não precisava disso! A empresa quis se igualar a marcas de luxo (que bancam sua opção e tem público pra isso) e só pisou na bosta legal! (desculpando a expressão). Nunca fui com a cara da Arezzo (só tenho um sapato), agora é que não piso mesmo o pé lá. Parabéns pelo post!

Alee - coletandodias.blogspot.com disse...

Que texto brilhante. Ótima colocação de ideias.
Seu texto é exatamente o que eu escreveria. Moro em um estado cuja economia principal é o agronegócio. Aqui derruba-se floresta pra plantar soja, milho,arroz e fazer pasto, temos 4 vezes mais bovinos do que pessoas. Em todo caso, isso é sustentado pela necessidade de alimentação. Não temos como acabar com essas praticas enquando a população continuar crescendo e precisando comer.
No caso da Arezzo nada disso se sustenta. É maldade e futilidade pura.

Talita Dezidério disse...

Gente, esse assunto virou uma polêmica mesmo. Também fiquei muito chateada com a Arezzo.

Adorei seu blog! Visite o meu também e tem sorteio por lá. Participe!!!

Bjinhuxx
Talita
http://mundodataly.blogspot.com

Dana disse...

E não passo nem na porta da Arezzo mais,não sou vegan, mas entendo que matar um pobre animal pra ficar bonito é babaquice, sejamos éticos